Quando o primeiro contacto com qualquer objecto nos surpreende, e o julgamos novo ou muito diferente do que até então conhecíamos ou do que supúnhamos que deveria ser, isso faz que o admiremos e nos surpreendamos com ele…, parece-me que a admiração é a primeira das paixões.
Art. 97 – As principais experiências que permitem conhecer esses movimentos no amor
Ora, considerando as diversas alterações que o corpo sofre e que a experiência mostra quando a alma está agitada por diversas paixões, noto que no amor, quando é sozinho, isto é, quando não é acompanhado de qualquer forte alegria, desejo ou tristeza, o bater do pulso é compassado, e muito maior e mais forte que de ordinário, um brando calor se sente no peito e a digestão dos alimentos se faz muito mais rapidamente no estômago; de modo que esta paixão é útil à saúde.
Art. 101 – No desejo
Finalmente, noto de particular no desejo que este agita o coração mais violentamente que qualquer outra paixão, e fornece ao cérebro mais espíritos, que, passando dele aos músculos, aumentam a acuidade dos sentidos e tornam mais móveis todas as partes do corpo.
Art. 131 – Como se chora de tristeza
A outra causa é a tristeza, seguida de amor, ou de alegria, ou em geral de qualquer causa que obrigue a expulsar muito sangue pelas artérias. A tristeza é propícia a isso, porque contrai os poros dos olhos. Mas como à medida que os contrai, diminui também a quantidade de vapores a que devem dar passagem, isso não basta para produzir lágrimas, se a quantidade desses vapores não for ao mesmo tempo aumentando por qualquer outra causa. E nada aumenta tanto como o sangue, que é enviado do coração, na paixão do amor. Por isso observamos que os que estão tristes não vertem continuamente lágrimas, mas apenas intervaladamente, quando fazem qualquer reflexão sobre os objectos que os emocionam.
Descartes, As Paixões da Alma

René Magritte, Les Amants (1928)
1 comentário:
Cheia de boas leituras e inspirações.....
bjs
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