quinta-feira, 2 de agosto de 2007

Sesta

Para quem como eu gosta de dormir a sesta, aqui vão óptimas justificações.



Klimt, As Damas (1912/13)


Zzzzzzzzzzzz... Queremos dormir a sesta

01.08.2007, Andreia Sanches, jornal "Público"


A Hungria pode vir a referendar uma lei da sesta. E em França, um ministro questionou recentemente: "Porque não dormir no trabalho?"
Em Portugal, deputados, artistas, governadores civis, presidentes de câmara fazem parte do clube dos Amigos da Sesta. E falam das vantagens. Os cientistas dizem que elas estão "provadas".

Prates Miguel, advogado e escritor, atende o telefone no seu escritório e confessa que está um bocado "irritadiço". A hora de almoço já lá vai e não conseguiu dormir a sesta - acontece-lhe muitas vezes, nomeadamente quando tem audiências no tribunal marcadas precisamente para aquela hora em que o corpo parece fraquejar e os olhos pesam. "Fico desequilibrado para o resto da dia se não durmo depois de almoço." Quando não tem julgamentos, é ali mesmo, no seu gabinete, que ocupa o sofá que costuma ser usado pelos seus clientes, cobre-se com uma manta e desliga. Uma hora, no máximo. Nem precisa de despertador. Por isso, quando se diz a Prates Miguel que na Hungria pode vir a realizar-se um referendo sobre o tema, ele rejubila.
Depois de se terem pronunciado sobre a adesão à Nato e à União Europeia, os húngaros poderão ser chamados, no próximo ano, a votar "sim" ou "não" à sesta. Esta semana, que coincide com uma sucessão de dias abrasadores no país, o Comité Nacional de Eleições tomou uma decisão. A pergunta - "Acha que o Parlamento da República da Hungria deve fazer uma lei para introduzir a sesta?" - tem pertinência e pode ser feita. Para que isso aconteça basta que sejam apresentadas 200 mil assinaturas a defender que a consulta popular deve ir para a frente.

Em Portugal, dormir no trabalho (pelo menos sem ser às escondidas) está longe de estar generalizado. O que é uma pena, lamenta um batalhão de fãs da sesta - e são já mais de 220 os sócios da Associação Portuguesa dos Amigos da Sesta (APAS), fundada há quatro anos por Prates Miguel e pelo então deputado socialista José Miguel Medeiros, hoje governador civil de Leiria.
Acreditam que não é pela mudança na lei que se defende algo sem a qual vivem mal - uma pausa a meio da jornada - e portanto as suas propostas não passam por aí. "O que pretendemos é difundir a ideia de que a sesta é algo natural, que é uma forma de sermos mais felizes, pretendemos alertar para o ritmo alucinante em que vivemos e sensibilizar para a utilidade de disponibilizar nos espaços de trabalho locais onde as pessoas possam, se quiserem, descansar", explica Miguel Medeiros. "A sesta é um direito de quem trabalha".

Benefícios comprovados

Há alguns anos, a adega cooperativa de Vila Nova de Foz Côa chegou a instituir um horário de almoço mais alargado para os trabalhadores dormirem. Mas a ideia não teve grandes adeptos. José Cabaço, 43 anos, funcionário no armazém da cooperativa, nunca aproveitou a oportunidade. "Não sentia falta." E porque como ele pensavam outros colegas, o horário voltou ao normal e a meia hora livre que tinha sido acrescentada ao almoço (e que implicava que no final do dia se chegava meia hora mais tarde a casa) foi retirada.
Mas outros países aproveitam as virtudes de um breve sono retemperador, como lembra Teresa Paiva, neurologista e autora do primeiro mestrado do mundo em Medicina do Sono. No Japão há empresas que fornecem almofadas - ou salas de repouso - para os funcionários dormirem alguns minutos. Nos escritórios da Toyota, em Tóquio, por exemplo, as sestas depois de almoço tornaram-se frequentes.
"Os benefícios de uma sesta curta, de 20 ou 30 minutos, estão cientificamente comprovados. Há um melhor desempenho cognitivo", explica Teresa Paiva.

A sonolência do pós-almoço não é um mero acaso. É por volta das 14h que acontece a segunda maior quebra de temperatura corporal do dia (a primeira ocorre por volta das quatro da manhã). Daí a "moleza", como também se ouve chamar-lhe. Não é uma reacção ao calor que a essa hora aumenta no exterior. É o nosso "relógio biológico intrínseco a funcionar", diz a neurologista que não tem pejo em mandar "tudo o resto esperar", quando se sente cansada, para se deitar numa das camas do seu consultório e dormir um pouco.
Teresa Paiva desconstrói também outro mito: é essa quebra de temperatura corporal que, em primeira instância, provoca o sono, não é o almoço, como por vezes se pensa. Ainda que as refeições "também façam aumentar a sonolência".

Está escrito no nosso ADN

"Somos o único animal que não tem na idade adulta um sono polifásico", continua a neurologista. Ou seja, dormimos tudo de uma vez, em regra à noite, o que segundo Sara C. Mednick, que escreveu o livro Faça a sesta. Mude a sua vida! (que acaba de ser publicado em Portugal pela a Bizâncio), contraria algo que "está escrito no nosso ADN".
"Somos o único animal que não tem na idade adulta um sono polifásico", continua a neurologista. Ou seja, dormimos tudo de uma vez, em regra à noite, o que segundo Sara C. Mednick, que escreveu o livro Faça a sesta. Mude a sua vida! (que acaba de ser publicado em Portugal pela a Bizâncio), contraria algo que "está escrito no nosso ADN".
"Ao longo da maior parte da nossa história, um período de descanso durante o dia era considerado uma componente tão necessária à existência humana como dormir à noite", escreve a investigadora do Salk Institute, na Califórnia. "Por volta do século I a.C. os romanos haviam dividido o dia em períodos designados para actividades específicas, como a oração, as refeições e o repouso. O meio-dia tornou-se conhecido por sexta, de sexta hora, um período em que todos iam para a cama. A palavra sobreviveu sob a forma que nos é familiar de sesta."
Mas "algures entre os séculos XIII e XV" os relógios mecânicos substituíram os de sol e água. Os trabalhadores começaram a ser remunerados à hora em vez de à tarefa. Dormir começou a ser encarado como um desperdício de tempo e de dinheiro. E o sono bifásico, continua Mednick, foi desaparecendo dos países mais desenvolvidos da Europa Setentrional à medida que a Revolução Industrial foi progredindo.
No Sul menos desenvolvido, ainda foi resistindo. Mas até a famosa siesta espanhola (siesta que também é rainha no México) tem enfrentado dificuldades. No final de 2005 foi publicada em Espanha uma lei que obriga a função pública a ter as 18h como hora limite de encerramento e que reduz a hora do almoço (esta fica limitada ao curto intervalo entre as 12h e as 13h, quando antes se estendia facilmente até às 16h30). O Governo alegou que não era bom os funcionários chegarem tão tarde a casa, ao fim do dia, para estar com a família. O Clube dos Empresários aplaudiu porque disse que a siesta custa caro ao país. Farão parte do grupo dos que não se deixam sensibilizar com argumentos como: Leonardo da Vinci, Isaac Newton, Napoleão Bonaparte e Albert Einstein ficaram para a história... e dormiam a sesta.

Soares, amigo da sesta

A NASA, que concebeu um programa de sestas a bordo para melhorar o desempenho dos seus astronautas em voos de longo duração - programa esse que algumas companhias como a British Airways ou a Amtrak (EUA) adoptaram -, tem estudado o tema. E Mednick recorda que a instituição concluiu que pode haver um aumento de até 100 por cento do estado de vigília. E "permanecer vigilante é o mais importante factor condicionador de eficiência", seja para quem conduz ou analisa tendências de mercado.
Muitos dos sócios da APAS não estranham a afirmação. Garantem que conhecem por experiência própria os efeitos benéficos da sesta. Da lista dos que desde 2003 aderiram à causa fazem parte desde governadores civis, a médicos, escritores, cantores, actores, empresários, deputados, presidentes de câmara...
O antigo presidente da República Mário Soares é sócio honorário - "Ele não dispensa a sesta e não duvido que isso explique a sua energia", afirma o governador civil de Leiria, fundador e sócio n.º 2 da APAS. "A mim, bastam 20 minutos, meia hora para me sentir diferente. Faço-o no carro em viagem, porque o meu trabalho implica milhares de quilómetros em viagem e tenho motorista; ou no meu gabinete, na cadeira ou no sofá. Adapto-me muito facilmente às circunstâncias", continua Miguel Medeiros.
Há quem durma apenas alguns minutos, quem o faça depois de almoço e quem tenha hábitos menos ortodoxos, como o escritor Álvaro Magalhães: "Trabalho à noite. Por isso durmo a sesta (uma meia hora) depois de jantar, o que corresponde ao meu meio dia de trabalho. Depois recomeço e trabalho até às cinco da manhã." Com criatividade reforçada.

Sem pijama

No escritório, Álvaro Magalhães tem um sofá confortável. Não exige mais nada para descansar um bocadinho, "não há nenhum ritual", não precisa de vestir o pijama, ou apagar as luzes, ou estar em silêncio. Tudo isso fica para o sono a sério, quando põe um ponto final na escrita. Bem diferente do primeiro-ministro britânico Winston Churchill que dizia que a sesta verdadeira implicava mesmo despir a roupa e ir para a cama - o estadista acreditava que "a natureza não nos fez para trabalhar, nem mesmo para nos divertirmos, das oito da manhã à meia-noite".
Francisco Moita Flores, autarca de Santarém, também se associou à causa da APAS, mas confessa: "Infelizmente não posso cumprir com o apetite diário que tenho" de fazer uma pausa e descansar. Uma vez por semana, no máximo, consegue esticar-se no sofá, depois de almoço. Mas já houve tempos em que o fazia mais vezes. "Quando dava aulas na faculdade, às vezes, nos intervalos, dormia no gabinete." Quando acordava, sentia que produzia mais.
Com Sinde Filipe, actor, dormir a sesta é diferente. A sua ligação à APAS começou porque um dia fez uma telenovela onde encarnava um personagem "apologista" do sono a meio do dia. E quando na associação souberam que o seu gosto pelo mesmo era mais do que uma ficção, foi convidado a juntar-se ao grupo. "Às vezes é difícil. Mas sempre que posso faço-o."
Nos estúdios tenta arranjar um refúgio - nos cenários há sempre um sítio mais propício - para dormir nem que seja meia hora. "Enquanto os outros fumam, durmo. Depois acordo, tomo um café, sinto-me óptimo. Se houver um referendo cá voto já a favor... porque é muito melhor desligar um pouco, para dar o melhor depois da sesta, do que andar sonolento o dia inteiro."

O regresso da sesta?

Talvez esta tenha sido uma das razões que levou o ministro da Saúde de França (actual ministro do Trabalho), Xavier Bertrand, a apresentar, há uns meses, um plano destinado a melhorar a qualidade do sono dos franceses, nomeadamente promovendo acções de prevenção e de educação. Mas o governante foi mais longe: "Porque não dormir a sesta no trabalho?" - interrogou, defendendo que o tema não deve ser um tabu. Algumas empresas já permitem interrupções para dormir durante 15 minutos. E o ministro disse mesmo que ia estudar o assunto e podia vir a "promover o conceito".
Os britânicos estranharam: "Eles já têm 35 dias de férias" - escreveu The Daily Telegraph. Mas até no Reino Unido uma "organização" chamada a Siesta Awareness (que na verdade é constituída apenas por Noel Kingsley, professor) assinala, de há dois anos para cá, o dia nacional da sesta. "Culturalmente", diz, dormir não é aceite. Mas as coisas podem estar a mudar. Kingsley nota que o dia nacional da sesta tem suscitado grande atenção: "No último 11 de Julho dei 33 entrevistas a rádios e televisões."
Para Sara C. Mednick há sinais "encorajadores" que apontam para o fim da "tendência anti-sesta" sobretudo "nas nações mais industrializadas do Norte da Europa". Um estudo recente conclui que, na Alemanha, 22 por cento da população activa diz dormir a sua sesta pelo menos três vezes por semana. E numa visita à sua terra natal, a Dinamarca, Mednick descobriu que na cidade de Hillerod (com 37 mil habitantes) há uma política oficial de sesta para todos os funcionários públicos.
Nos EUA, as empresas "começaram igualmente a acordar" para a sesta. Na Nike, por exemplo, há uma área para dormir. E no sul de Espanha "vende-se" a sesta como um produto turístico - hotéis oferecem quartos a preços especiais.

Politicamente incorrecto

Para já, em Portugal, esta "é uma ideia que ainda é politicamente incorrecta", diz Manuel Patrício, administrador da Cimpomóvel Imobiliária. Numa altura em que se fala tanto de crise de produtividade, é difícil defender que se deve parar no horário laboral. Na sua empresa não se faz sesta, mas, ainda assim, associou-se à APAS porque acha que a associação tem um papel: "Fazer com que o politicamente incorrecto se torne politicamente correcto."
Tem acontecido aos poucos, acredita Prates Miguel. No ano passado, a APAS organizou em Estremoz um seminário que teve grande cobertura mediática. Entretanto disponibilizou um site que está a ser melhorado. E em algumas ocasiões emitiu alguns comunicados a defender o sono dos portugueses. A sesta, insiste o governador civil de Leiria, não tem nada a ver com preguiça.
Mas o preconceito existe. Celeste Gouveia, deputada do PS, sócia n.º 28, diz que não tem vida para sestas. Mesmo que a quisesse fazer, no Parlamento, o seu local de trabalho, não há as mínimas condições para que os deputados possam dormir. De resto, há o receio: "Vocês [jornalistas] escreviam logo: "Parlamento a ressonar"."
Já houve, no entanto, um tempo em que dormia na hora do calor sem medo do que dissessem: "Em Cabo Verde, onde passei a minha infância e adolescência, as distâncias são curtas, as pessoas saem do serviço, vão dar um pulo à praia, depois almoçam e dormem uma sesta e só depois voltam para o serviço completamente revigoradas."
Quem já viveu em África, como Eduardo Medeiros, antropólogo africanista, professor na Universidade de Évora - mais um sócio da APAS -, relata a mesma experiência. Em países como Angola e Moçambique, por exemplo, a sesta tem tradição. E no campo, no pico do calor, "não havia quem não estendesse a esteira para repousar". Ele adquiriu o hábito e durante anos não o dispensou. Hoje, infelizmente, "a netinha não deixa".
Apesar da sua condição de membro da APAS, o neurologista Ramalho Gonçalves relativiza a questão: "Não é taxativo que a sesta tenha uma importância fundamental no indivíduo adulto." As pessoas são todas diferentes e nem todas sentem necessidade ou gostam sequer de dormir de dia. Na primeira infância, a sesta é fundamental como o é para pessoas com doenças como a narcolepsia. Já quem sofre de enxaquecas pode acordar com dores de cabeça se dormir durante o dia, exemplifica Teresa Paiva.
Ainda assim, Ramalho Gonçalves não tem dúvidas que os portugueses dormem pouco, menos do que as sete, oito horas que seriam recomendáveis - "têm horários matinais iguais aos dos nórdicos e deitam-se à mesma hora que os espanhóis". E se todos os especialistas alertam para o facto de uma sesta não substituir noites consecutivas de pouco sono, a verdade é que "20 ou 30 minutos a dormir podem mesmo tornar uma tarde muito mais produtiva".

1 comentário:

Anónimo disse...

Eu tb sou fã da sesta!! pena que aqui ainda não é aplicável :-).

Ahh... não poderia deixar de parabenizá-la tb por aqui. Bjs...felicidades e sucesso